1967 · O ano em que abrimos as portas
Em 1967, o Porto era outra cidade. A Rua de Santa Catarina ainda tinha eléctricos a percorrer o paralelepípedo. A Capela das Almas, ali ao fundo, tinha menos turistas a fotografá-la. O Bolhão era mercado de todos os dias, não atracção. E uma família com dinheiro emprestado, conhecimento técnico em óptica e uma vontade clara abriu, no número 29 da rua mais comercial do Porto, uma loja de óculos.
Não havia plano de negócio. Não havia consultor de marca. Não havia "branding". Havia uma certeza: que o Porto precisava de uma ótica que tratasse bem dos olhos das pessoas. Tratar bem queria dizer, então e agora, três coisas: ouvir antes de prescrever, escolher armações que durassem, e nunca pôr o cliente em fila.
Anos 70 · A nossa cidade muda, nós também
A década de setenta foi de transformação para o Porto. O 25 de Abril chegou. As primeiras grandes superfícies começaram a aparecer. As armações em metal começaram a perder espaço para o acetato. E a nossa loja, ainda muito jovem, começou a ganhar os primeiros clientes-de-sempre — pessoas que voltavam todos os dois anos, que traziam os filhos, que recomendavam aos vizinhos.
O retrato típico de um cliente nessa altura: trabalhador que precisava de óculos para a oficina ou para o escritório, escolhia uma armação que servisse anos, e voltava quando partia. Hoje, esse tipo de cliente continua connosco — muitos deles, literalmente os mesmos.
Anos 80–90 · A era Essilor
Na década de oitenta, fizemos uma aposta técnica que viria a marcar toda a casa: tornámo-nos especialistas Essilor. A Essilor era, e continua a ser, a referência mundial em lentes graduadas. Particularmente para progressivas, onde a sua gama Varilux não tem paralelo.
Esta aposta não foi marketing. Foi técnica pura: montagem própria das lentes no nosso laboratório, no Porto, com técnicos formados directamente pela marca. Significa que quando um cliente sai com óculos novos, sai com lentes feitas em França, ajustadas à sua medida, montadas a 100 metros da entrada da loja.
Era — e continua a ser — um trabalho que não se delega. Por isso é que nunca enviámos lentes para fora a montar. Não é mais lento. É mais nosso.
1990s · Os primeiros clientes da segunda geração
Nos anos noventa começou um padrão que ainda hoje nos faz parar: os filhos dos nossos primeiros clientes começaram a aparecer pelos primeiros óculos. Aos doze, aos quinze, aos dezoito anos. O pai apontava: "Vai ali à Óptica do Porto, na Santa Catarina, eles tratam bem."
Esses filhos são hoje pais. Trazem agora os deles. Há famílias que estão connosco há três gerações de óculos — e algumas que estão a entrar na quarta. Isto não é uma estatística para a página. É um privilégio raro, e a base sobre a qual tudo o resto está construído.
2020 · Abrir os Aliados
Em 2020 abrimos a segunda loja na Avenida dos Aliados, 221. A decisão custou anos. A Óptica do Porto é, antes de tudo, a casa da Santa Catarina — abrir outra porta poderia diluir a alma da casa-mãe. E, num ano em que o mundo parou, abrir loja nova foi um acto de convicção que poucos faziam.
Mas havia razão. A cidade tinha mudado. O Porto da Baixa estava cheio. Muitos clientes começaram a evitar o trânsito de Santa Catarina ou a procurar opções mais próximas dos eixos profissionais. A Avenida dos Aliados, mais ampla, mais próxima da estação de São Bento, com parking mais acessível, fazia sentido.
Hoje, as duas lojas servem clientelas em parte distintas mas com o mesmo tratamento. Santa Catarina é a loja onde se vai sem pressa, no fim do dia, pelo prazer de escolher. Aliados é a loja onde se vai à hora de almoço, antes de uma reunião, com objectivo claro. Ambas, 45 minutos por consulta. Ambas, Essilor. Ambas, a mesma curadoria.
2010s · A curadoria do impossível
Na última década, a maior decisão estratégica foi não-decidir. Não decidir passar a cadeia. Não decidir incluir marcas brancas. Não decidir baixar preços para competir com Multiopticas. Não decidir abandonar os 45 minutos por consulta porque "ninguém tem tempo".
Foi nesta década que começámos a viajar regularmente ao Mido (Milão) e ao Silmo (Paris) — as duas feiras internacionais de óptica que importam — para escolher pessoalmente as marcas que entram em loja. Hoje representamos:
- Lindberg (Dinamarca, 1969) — titânio sem parafusos, made-to-order em Aarhus
- Dior (França, 1947) — colecções de óptica da maison da rue Montaigne
- Chanel (França) — acetato moldado à mão em Itália com os códigos da casa
- Oakley (EUA, 1975) — lentes Prizm graduadas para performance
- Dita (EUA/Japão, 1995) — acetato japonês com 100+ etapas manuais
- Gucci (Itália, 1921), Fendi (Itália), David Beckham (Reino Unido)
Cada marca foi escolhida não por moda, mas por construção. Lindberg pesa menos de três gramas porque cada peça é feita por encomenda. Dita pode demorar oito meses a fabricar porque cada armação requer mais de 100 etapas manuais. Estes não são argumentos comerciais — são razões pelas quais estas armações duram décadas em vez de meses.
2026 · O ano antes do aniversário
Estamos a 59 anos. Em 2027 fazemos sessenta. Não somos novos, e nunca tencionámos ser — mas há uma diferença entre não ser novo e estar estagnado. Nestes últimos anos, juntámos:
- Marcação online com calendário em tempo real (porque alguém querer marcar à uma da manhã não devia ser problema)
- Digitalização do arquivo — fotos antigas, recibos da década de setenta, retratos do fundador (em curso)
- Programa de cliente histórico em estudo — reconhecer quem está connosco há trinta, quarenta, cinquenta anos
- Newsletter trimestral a arrancar — não promocional. Editorial.
O ritmo é deliberado. Não somos uma startup, não temos pressa em "crescer". Temos pressa em fazer bem o próximo cliente que entra. O resto vem em consequência, como sempre veio.
2027 · Sessenta anos
Em 2027, vamos celebrar com algo que faz sentido para uma casa de 60 anos: uma edição limitada de 60 armações numeradas em colaboração com uma marca independente, um livro com fotografias de arquivo e testemunhos de clientes históricos, uma exposição do arquivo aberta ao público durante seis meses na loja Santa Catarina, e uma festa para quem nos viu nascer — ou nasceu connosco.
Quem quiser receber pré-acesso ao anúncio formal pode deixar email no formulário do nosso site. Não vamos enviar mais nada — só este aviso, quando a campanha abrir.
E depois?
Em 2067, quando fizermos cem anos, gostaríamos que ainda estivéssemos aqui. Mas isso não depende só de nós. Depende dos portuenses que continuam a escolher entrar pela mesma porta há sessenta anos. A esses, há pouco mais a dizer do que obrigado, e volte sempre.